domingo, 14 de setembro de 2014

Estratégias de Apropriação do Espaço

Parkour:

Correr, suspender-se, saltar, dependurar, rastejar… O Parkour é uma atividade que desenvolve essas habilidades e devolve ao praticante a capacidade de através de seus usos, movimentar-se livremente no ambiente em que se encontra.

A idéia é traçar um percurso ou objetivo e, por meios próprios, alcançá-lo independentemente dos obstáculos que surgirem no caminho. Durante esse deslocamento o praticante aprende a fazer uso de artifícios que vão desde a exploração da sua condição física ao discernimento de quais métodos de transposição oferecem menor risco ou maior eficiência durante esse trajeto.

A prática recebeu esse nome em 98 quando David Belle, juntamente com os praticantes de vanguarda, trouxeram para a as ruas francesas uma adaptação para o meio urbano das técnicas de salvamento e resgate utilizadas em treinos militares.





Deriva:

Fundada em 1957 em uma pequena aldeia italiana, Internacional Situacionista foi uma organização revolucionária de cunho essencialmente europeu. Os membors dessa organização eram contra o capitalismo edefendiam não só o fim do mercado como também do Estado, e eram adeptos a autogestão generalizada.

A crítica se dá aos mecanismos apropriados pelo capitalismo para garantir as mudanças necessárias à sua reprodução ampliada, sem que nada mude expressivamente. A esses mecanismos e à alienação moderna completa Guy Debord (o nome mais conhecido entre os membros da I.S.) dá o nome de espetáculo. O capitalismo enquanto conjunto e modo de vida levado pelo homem moderno, que não mais tem o domínio da sua própria vida.

A vida urbana do fim dos anos 50 foi criticada à medida que um Urbanismo Unitário foi proposto. Essa era uma das preocupações centrais da I.S.: um programa, uma proposta de novo urbanismo, crítico ao funcionalismo utilitário da vanguarda artística e arquitetônica da época.

Assim como as situações construídas, o Urbanismo Unitário parte da paisagem urbana atual. Constrói-se a partir daquilo já existente, descobrindo nos meandros da cidade novos usos. Na realidade, o U.U. seria o construto de uma nova situação urbana, de âmbito geral. O método utilizado para reconhecer o conteúdo lúdico da cidade (alusão ao jogo correspondente às situações construídas também) é a Teoria da Deriva.


Entre os diversos procedimentos situacionistas, a deriva se apresenta como uma técnica
da passagem ativa através dos variados ambientes. O conceito de deriva está
indissoluvelmente ligado ao conhecimento dos efeitos de natureza psicogeográfica, e à
afirmação de um comportamento lúdico-construtivo, o que o opõe em todos os pontos
às noções clássicas de viagem e de passeio.


“Deriva: Modo de comportamento experimental ligado às condições da sociedade urbana; técnica da passagem brusca através de ambientes variados. Emprega-se também, mais particularmente, para designar a duração de um exercício contínuo desta experiência."




Flanêur:


O termo flanêur vem do francês e tem o significado de "vagabundo", "vadio", " preguiçoso", que por sua vez vem do verbo francês flanêur, que significa "para passear". Charles Baudelaire desenvolveu um significado para flanêur de "uma pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la". 

Devido à duração da utilização e teorização por Baudelaire e inúmeros pensadores em termos econômicos, culturais, literários e históricos, a idéia do flânêur tem acumulado importante significado como uma referência para compreender fenômenos urbanos e a modernidade. Walter Benjamin descreve o flâneur como um produto da vida moderna e da Revolução Industrial, sem precedentes, um paralelo com o advento do turismo. Benjamin se tornou o seu próprio exemplo, observou o social e estético durante longas caminhadas por Paris.

A percepção do flanêur parece se dar diante daquilo que é transitório na cidade, mas ele não simplesmente lamenta-se a respeito da transitoriedade, ele se alimenta dela, ele formula uma espécie de abrigo no ventre da caótica urbanidade – bem entendido, caótica para os citadinos, não para os gerenciadores políticos da nova ordem social – tecendo uma narrativa dos atrativos da cidade, numa espécie de reconhecimento do apelo erótico das coisas e das pessoas no contexto dos desencontros modernos.

O flanêur atende, inicialmente, a uma necessidade individual burguesa de sobrepor-se à aristocracia e irá tornar-se um instrumento das próprias massas, devido ao protagonismo das mesmas no gênero inaugurado pelo observador da cidade.



"Rolezinho":

“Sair de rolê...” significa dar uma circulada despretensiosa pela vila ou pela cidade. É possível dar um rolê de trem, de ônibus ou a pé. Geralmente, o rolê está ligado ao lazer ou a alguma prática cultural. Sai de rolê o pichador, o skatista, o caminhante... O que vem chamando a atenção de muita gente é como um simples gesto de sair e circular de forma livre tem ocupado um papel central nas principais mobilizações juvenis na cidade de São Paulo e nas outras grandes cidades do Brasil nos últimos tempos.

Com a chegada do asfalto, vieram também muitos carros e se instituiu como verdade o discurso de que a rua é lugar perigoso e violento. Para muitos adultos, as políticas culturais só se justificam se for para “tirar os jovens das ruas”. Para os jovens, ao contrário, suas ações culturais só têm força e sentido quando acontecem na rua, no espaço público.

A condenação da rua como espaço da violência veio acompanhada da chegada dos shopping centers também às periferias. Muita gente vai ao shopping tentar encontrar um vazio deixado pelo “fim” das ruas. Para além do consumo, busca-se num shopping um passeio mais livre, solto, e a possibilidade de encontro com pessoas de fora do círculo mais próximo, familiar. No entanto, esse encontro não acontece. Tampouco a livre circulação. As pessoas só encontram uma multidão “sem rosto e coração” – nos dizeres dos Racionais MC’s –, e a circulação no interior do shopping não pode ocorrer de forma livre e espontânea. Ela tem regras claras e rígidas: os pobres podem circular pelo shopping, contanto que finjam pertencer a outra classe social. Mesmo que circulem no shopping sem recursos para consumir, eles devem desejar consumir. Da mesma forma, os negros podem circular pelo shopping tranquilamente, desde que finjam ser brancos nas vestimentas, nos cabelos, no comportamento etc.

Nesse sentido, estar no shopping – no local que a sociedade estabeleceu para substituir a rua – é bastante provocador. Os rolezinhos levaram para dentro do paraíso do consumo a afirmação daquilo que esse mesmo espaço lhes nega: sua identidade periférica. Se quando o jovem vai ao shopping namorar ou consumir com alguns amigos ele deve fingir algo que não é, com os rolezinhos ele afirma aquilo que é! E quando faz essa afirmação ele revela a contradição na lógica dos shopping centers. Ou seja, os rolezinhos põem por terra a aparente circulação livre e o espaço aberto que os shoppings dizem proporcionar. Quando o jovem afirma, por meio do rolezinho, sua identidade de negro e pobre, a contradição se evidencia e a polícia é acionada, e tão logo o paraíso do consumo e do prazer se revela como o inferno do preconceito racial e da violência.

É significativo que os rolezinhos nos shoppings se iniciem num momento em que um projeto de lei que proibia as festas de rua, sobretudo os bailes funks, apresentado por representantes da “bancada da bala”, se encontrava para sanção ou veto do prefeito. O prefeito vetou. Mas as ruas ainda estão longe de pertencer aos jovens. Por isso, os rolezinhos continuaram e aumentaram. Os jovens querem as ruas de volta. O pancadão é só um exemplo dessa demanda. Para demonstrarem que o desejo dos shoppings de assumir o lugar da rua fracassou, os jovens resolveram levar a rua para dentro dos próprios shoppings e escancararam a luta de classes na cidade. É como se o povo não estivesse mais na rua para exigir seus direitos. A própria rua virou um direito que esses jovens exigem

Os “rolezinhos” levaram para dentro do paraíso do consumo a afirmação daquilo que esse mesmo espaço lhes nega: sua identidade periférica. Se quando o jovem vai ao shopping namorar ou consumir com alguns amigos ele deve fingir algo que não é, com os rolezinhos ele afirma aquilo que é!







Flash Mob:

Flash Mobs são aglomerações instantâneas de pessoas em certo lugar para realizar determinada ação inusitada previamente combinada, estas se dispersando tão rapidamente quanto se reuniram. A expressão geralmente se aplica a reuniões organizadas através de e-mails ou meios de comunicação social, notadamente pelas redes sociais digitais.

No mundo inteiro, flash mobs vêm ganhando cada vez mais aspectos políticos e não apenas para mudar a rotina ou modificar o meio urbano. Na Rússia, por exemplo, um grupo de pessoas se reuniu ao redor de um caixão e deram-se as mãos em luto formando um quadrado, declarando a “morte da democracia em 2003. Por lá, pela repressão às revoltas ou protestos ser intensificada, flash mobs são preferências cada vez mais aceitas por serem organizadas rapidamente, atraírem muitas pessoas e depois se dispersa tão rápido quanto apareceu, impedindo a ação da polícia muitas vezes.

Um flashmob em desafio ao governo foi organizado na Bielorrússia por volta de 2006 que consistia em um grande grupo de pessoas tomando sorvete próximo ao centro da cidade, em contestação a uma lei aprovada em assembleia que proíbe manifestações no país. Mesmo com as pessoas deixando o local depois da realização do pequeno protesto, alguns jovens ainda foram presos.

Assim podemos perceber que a realização de flash mobs que têm como princípio motivador reivindicações políticas também ocorre. Esse movimento, porém, recebe o nome de "Smart Mob" e já foi realizado em diversas cidades. O roteiro de ação é parecido com o do flash mob, ou seja, as pessoas reúnem-se em determinado local previamente divulgado pelas mídias sociais, praticam uma atividade inusitada e logo em seguida, dispersam-se na multidão. Na maioria dos casos, a atividade realizada remete à razão pela qual os participantes estão protestando. Essa nova forma de manifestação política é muito eficaz, uma vez que sua rápida divulgação e realização dificulta a ação repressiva das autoridades. Além disso, o fato de os participantes estarem engajados em alguma ação inusitada chama a atenção para a causa do protesto. As greves e manifestações em geral não despertam tanta curiosidade como os Smart Mobs, o que contribui para que um número maior de pessoas familiarize-se com o motivo da reivindicação.

Em março de 2010, os alunos do programa Valores de Minas, iniciaram um Flash Mob na inauguração do Circuito Cultural Praça da Liberdade. O movimento começou com uma cantora entoando "O que é, O que é?" do músico Gonzaguinha. A movimentação foi tão envolvente que até mesmo o governador de Minas Gerais, Antônio Anastasia, e o então ex-governador Aécio Neves participaram da dança:




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